Zero Hora: "Transparência na saúde 16/02/2006
ALOYZIO ACHUTTI/ Membro da Academia Sul-Rio-Grandense de Medicina
Há poucos dias, a prestigiada agência Transparência Internacional lançou seu Relatório Global Contra a Corrupção 2006. Neste ano, foca o setor saúde e fala dos "seus mais de US$ 3 trilhões anualmente movimentados em todo o mundo, num labirinto complexo e opaco, constituindo-se em campo fértil para roubo, propina e extorsão". Diz também que "enquanto a maioria das pessoas empregadas no setor exerce suas funções com diligência e integridade, coexistem com muita rapinagem, distorções do mercado técnico e farmacêutico, e com questionáveis decisões políticas e desvios de fundos". "A corrupção na saúde corrói a confiança na comunidade médica e seu preço é pago não só em dinheiro, mas com sofrimento humano e vidas".
É pena que, atrás dos bons resultados e de sucessos memoráveis e atitudes heróicas, escondam-se aproveitadores inescrupulosos, lesando ainda mais aqueles mais necessitados e sem chance de encontrar alternativas.
Baixos salários e pobres investimentos em infra-estrutura e na adequação à demanda, especialmente na esfera governamental, são símbolos de desprestígio e pretexto para saídas escusas. Falta e desperdício de material e medicamentos, redução do tempo de trabalho, mau atendimento, propinas, cobranças por fora, superfaturamento, manipulação de informações administrativas e técnicas, e tantas outras mazelas de difícil controle comprometem a eficiência dos sistemas assistenciais em todo o mundo.
Se forem considerados em separado os assim chamados sistemas complementares, seguros privados, cooperativas ou outras modalidades de captação, que em nosso país giram um volume de recursos semelhante ao do SUS, pode-se encontrar uma gama semelhante de problemas. A intermediação por si só já desvia boa parte dos recursos, e a ganância pelo lucro, as estruturas criadas para a perpetuação no poder das esferas diretivas, bem como seus asseclas aspirantes de um dia lá chegar, consomem boa parte do dinheiro que os associados depositam com vista no retorno em serviços. Parte dos altos custos dos planos de saúde fogem literalmente pelo ladrão.
Os interesses da indústria farmacêutica e de equipamentos, os lobbies e as pressões, algumas delas travestidas de apoio ao desenvolvimento científico, tornam mais difícil distinguir o que realmente vem em benefício do paciente e o que serve para satisfazer interesses secundários.
Nossa profissão ficou progressivamente dependente deste sistema perverso e até certo ponto (ingenuamente) comprometida, já que é muito através da prescrição médica que as coisas acontecem, embora os salários e honorários profissionais sejam a menor rubrica, e têm diminuído per capita enquanto cresce o montante global.
A única saída está na transparência e na conscientização dos usuários de que assistência à saúde não é caridade, e que alguém (o próprio contribuinte) está pagando a conta, e que o abuso, tanto por parte do cliente quanto do sistema, não pode ser tolerado.
O relatório termina dizendo que saúde é uma importante indústria global, uma responsabilidade-chave e fonte de despesa orçamentária para governos e empresas, mas mais do que isto é um direito humano global. Embora não exista uma solução única e fácil, este é um apelo à ação de pesquisadores, governos, setor privado, mídia e aos cidadãos de todo o mundo.